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seminário Porto alegre: PASSADO E FUTURO

Porto Alegre tem futuro?

Seminário aborda o futuro de Porto Alegre numa época em que a cidade tem                                               dificuldade de entender o seu presente 

Publicado: 2016-03-28


No Seminário Porto Alegre: passado e futuro, promovido pelo Instituto Latino Americano de Estudos Avançados no último dia 23, no Campus da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, afirmei que há uma parte do futuro de Porto Alegre que é previsível ainda que outra não o seja. Na mesa redonda coordenada pelo Prof. José Vicente Tavares, composta por Luciano Fedozzi e Tânia Marques, mostrei que há muita incerteza no futuro da cidade, podemos dominar a evolução física do mundo mas não podemos dominar as consequências da ação humana. Essa diversidade de possíveis futuros é que deveria fazer-nos acreditar mais na política. Jean Pierre Dupuy lembra que John Rawls afirma em sua obra “Uma teoria da Justiça” que não há reciprocidade entre as gerações, que o tempo é irreversível. A justiça vive do contrato de reciprocidade mas não pode haver reciprocidade entre gerações diferentes. A geração que chega não tem condições de dar algo em troca a que lhe precede. Essa visão pessimista do futuro, de que a humanidade tem como destino a destruição, impõe o dever com o futuro para evitá-la a todo custo.

Como os porto-alegrenses caminham para a destruição e o que podem fazer para impedi-la? Não se trata de uma destruição real, ainda que possamos apontá-la na fragilidade com que nossas políticas públicas são efetuadas. Se trata antes de um problema do espirito, da destruição do espirito porto-alegrense, de nossa humanidade, daquilo que somos hospitaleiros ou sociáveis, solidários ou egoístas   “o futuro não precisa de nós, nós´[é que] precisamos do futuro, diz Dupuy, querendo dizer com isto que é ele que dá sentido ao que fazemos. Quando anunciamos uma catástrofe possível com o objetivo de evitá-la, não se pretende predizer o futuro, mas simplesmente, dizer o que teria sido se não se tomasse cuidado para evita-lo. Por isso, o legado da esquerda “um outro mundo é possível” faz sentido, vivemos uma crise temporal em que é preciso buscar novos sentidos para a ação política.


O filósofo coreano buyng chul han

Em El aroma del tempo(Herder, 2015), Byung-Chul Han aponta outro ponto de vista. Não se trata de que vivemos uma crise temporal devido a aceleração do tempo, mas de que vivemos uma dissincronia, uma atomização e dispersão temporal. Cada instante é igual ao outro e não existe um ritmo que dê significado a vida. Nada se conclui e tudo se experimenta como efêmero e fugaz. A morte, que dava uma unidade de sentido, é invalidada, principalmente graças aos avanços científicos. Não é assim que o porto-alegrense se sente, que vive uma época de aceleração, de produção de inúmeras atividades a cada instante, da imediata necessidade de tomada de posição, de afirmação, como vemos nas redes sociais? Se olha o noticiário, vê com surpresa que a cada dia novas notícias lhe são dadas. Para Han, isto não é aceleração da vida, mas dispersão, isto é, falta ao tempo que passa um ritmo ordenador. Basta ver o sentimento quanto as estações do clima, que antes pareciam lhe oferecer um mundo ordenado, agora, o inverno se parece com o verão, não há mais máximas de temperatura, etc,etc.. A sensação de que tudo é muito rápido não permite experimentar nenhum tipo de duração. Vemos assim as tragédias em nossa história, não refletimos sobre elas, que se convertem em algo passageiro. Para Han é uma das formas da pobreza do mundo, faz com que nos encerremos em nossos corpos, tentando manter nossa sanidade, porque, a velocidade da informação, não registramos nada: “Hoje em dia, morrer é muito difícil”. Para Han é uma ação política revitalizar a vida contemplativa, hoje superada pela vida ativa, valorizar nossa capacidade de observação, porque dela vem a análise e a compreensão. A vida ativa conduz ao imperativo de trabalho, que degrada a pessoa e o transforma em animal laborans, arrancando qualquer elemento contemplativo, a capacidade de “demorar-se”. Hoje, tudo na vida é veloz. Produzir textos acadêmicos, artigos, participar de ações políticas, mas ao mesmo tempo, esta é a forma de nossa perda do mundo e de tempo. É preciso desacelerar, diz Han. O futuro deve ser deixado em seu lugar.


FAZEMOS COISAS DEMAIS E PERDEMOS A NOÇÃO DE TEMPO

A origem das preocupações de Han com o modo como fruimos o tempo vem da influência que o autor sofreu da filosofia zen e da filosofia oriental. Han, filósofo nascido na Coreia do Sul e com doutorado sobre a obra de Martin Heidegger, discute a filosofia do budismo com autores que vão de Platão à Wittgenstein. A filosofia zen busca mostrar independente dos escritos e signos , o coração do homem e sua natureza. Para Han, estamos numa época em que não podemos morrer em nosso devido tempo. Não vemos sentido, unidade de sentido na vida, então a morte é sentida como algo fora do tempo. Vivemos o dia a dia num começo sempre novo, a vida não conclui uma unidade. “A aceleração atual tem sua causa na incapacidade geral para acabar e concluir”, diz Han. Você se aposenta para continuar trabalhando e o seu drama é oriundo do contexto de exploração “Quando o tempo perde o ritmo, quando flui aberto sem deter-se em algum lugar, desaparece também qualquer tempo apropriado ou bom”.

Nossa vida não está se acelerando, na realidade, apenas se tornando mais inquieta, mais confusa e desorientada. “Por isso não vida não há mais momentos decisivos ou significativos. O tempo da vida já não se estrutura em cortes, finais, nem transições. A gente se apressa, mais bem, de um presente a outro“, diz Han. A destemporalização generalizada implica a desaparição de cortes temporais, conclusões e transições que dão sentido a vida. Sem um tempo articulado, a sensação é de que as coisas transcorrem com maior rapidez do que antes. E quanto mais os acontecimentos se desprendem uns sobre os outros, mais deixam de nos dar uma marca profunda, isto é, menos se tornam ou se convertem em experiência. “Nada importa, nada é decisivo. Nada é definitivo. Não há nenhum corte”, diz Han.


Porto alegre, cidade que completou mais um anviersário
 

Roger-Pol Droit formulou esta questão em “Se só me restasse uma hora de vida”(Bertrand Brasil, 2014). O filósofo formulou a questão que dá o título a obra como uma questão de reflexão onde busca, numa situação limite, estabelecer os critérios para viver a vida estabelecendo prioridades e problemas. Porque, na situação paradoxal da morte próxima “a vida deixa de ter as mesmas características, eu continuo tendo um passado, um presente, não há mais futuro”. Droit fala do tempo disponível – o futuro – e que diminui essa sensação é justamente o que nos dá a ideia da importância de fazer projetos, manter a esperança e de “INVENTAR O FUTURO”.

O que é inventar o futuro? É fazer política e redescobrir através dela a capacidade das utopias. Gregory Claeys, em Utopia, a história de uma ideia, fala que aspirações por um mundo melhor existiram ao longo da história formuladas por poetas, filósofos, reformadores sociais, arquitetos e artistas. A formulação dos Planos Diretores,principalmente de 1914, foi talvez nossa primeira utopia urbana e como outras utopias,envolvem arquétipos de criação de uma cidade melhor, um lugar como o paraíso – não é o que o Parque Farroupilha previsto encarnava?. Os movimentos encarnados na política, da novas formas de organização popular e politca do século 20, não são também esses novos mundos e descobertas dos porto-alegrenses, envolvendo elementos de comunidades modelo a distopias políticas e ecológicas?.


Plano de melhoramento, o futuro ontem.

Para o autor, entretanto, vivemos uma era onde as utopias foram enterradas desde o colapso do comunismo soviético e da conversão da China em um mercado livre. A utopia encarnada pelo movimento de esquerda nos 16 anos que ocupou a prefeitura da capital tornou-se um ideal triste, a cidade tornou-se triste porque não temos mais o sonho com uma era de outro “preferimos fazer compras”, diz Claeys. E completa: “queremos – é o que parece nos dizer o fim do século XX – subúrbios, luxo, cultura de celebridades, diversão, novidades constantes e atraentes e uma migalha para nossos desejos ilimitados”(p. 202). Tudo o que está ligado a expansão dos shoppings centers na capital e a posterior remodelação dos fluxos da população na cidade parece estar ligado a isso.

Para Clayeis, estamos perdendo nosso senso de comunidade. Em Porto Alegre, a redução da visitação aos parques devido a violência, a expansão população e a consequente descentralização dos modos de vida corroboram a sensação do autor de viver num beco sem saída, a terra do "quero tudo". Contra as consequências da expansão capitalista na capital, a exploração da terra, a expansão das populações pobres em direção a periferia, a utopia politica é um discurso sobre a necessidade de recuperação de nossas formas de sociabilidade voluntária, a possibilidade de criar novos espaços de vida coletiva sem remodelar inteiramente a sociedade. Entre o possível e o impossível da politica, a utopia não é perfeição, nem salvação porque os inimigos da sociedade porto-alegrense são a vontade de acumular, o desejo de manutenção da desigualdade pelas elites, e também o desejo por poder. Tão importante quanto prever o futuro da capital é imaginar o futuro. Nos termos da filosofia, a busca do futuro melhor é a busca da boa vida.


Escrito por

Jorge Barcellos

Doutor em Educação. Autor de "Educação e Poder Legislativo"(Aedos Editora). Colaborador do SUL21, Estado de Direito e Jornal Zero Hora.


Publicado en

Pensamento Contemporâneo

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