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Tem a esquerda futuro em Porto Alegre?

Em direção a uma capital de esquerda

As vésperas de mais uma eleição municipal, lideranças políticas se perguntam se                    Porto Alegre ainda possui espaço para uma gestão de esquerda

Publicado: 2016-04-04


O inicio da caminhada em direção a mais uma eleição municipal coloca a questão: como refundar o Partido dos Trabalhadores em Porto Alegre? A capital já teve grandes ciclos de disputa política:  PTB versus anti-PTB nos anos 50 e PT versus anti PT nos anos 2000. O PT não perdeu apenas duas eleições na capital, perdeu a chance de um debate de projetos que fragilizou a oposição. Porquê?

Para mim, três fatores explicam a derrota do PT nas duas últimas eleições, reflexão que deve estar na base dos movimentos de esquerda em direção as eleições de 2016. A primeira foi a sua incapacidade de perceber a necessidade de abdicar da candidatura próprias em benefício de uma “união de esquerdas”. As oposições ao governo municipal estavam tão voltadas para sí próprias que não perceberam que era o futuro da esquerda na capital, no seu conjunto, que estava sob risco. Pagou para ver e perdeu eleitores.


Prefeitura de porto alegre; objeto do desejo da esquerda

O segundo é que o PT não percebeu a mudança do discurso de Fogaça (2008) para Fortunati (2012): ao substituir o discurso da defesa da “cidade como um todo” (NOLL, DIAS & KRAUSE, 2012) pelo discurso do “Eu amo Porto Alegre”, o PT não percebeu que este discurso é ideologia em estado puro. Ele não diz “Eu amo TODOS vocês” – a humanidade - mas seleciona a partir um ponto de vista que me faz dizer “Eu amo você ACIMA de qualquer coisa”. Para o PT ele é profundamente ideológico porque é a negação do seu ideal de solidariedade mundial, da sua defesa da luta conjunta com os povos excluídos e as populações marginalizadas, etc, etc, justamente a base distintiva de sua ideologia. É ideológico porque nos diz: não nos preocupamos, não existe nada ALÉM de Porto Alegre, ideia que extermina de uma vez por todas toda a herança petista do Fórum Social Mundial. Por favor, é claro que gostamos da cidade como tudo mundo – mas isto nada mais é do que o sentimento de “proxemia” definido por Michel Maffesoli e que todos sentem em qualquer lugar do planeta. Isso não tem nada de político e o PT foi incapaz, em sua campanha, de se opor a ele, foi a ausência de um contra-discurso original que deu ainda mais força a propaganda de Fortunati .

Em terceiro, Fortunati conseguiu a vitória porque conseguiu fazer em sua campanha o que Hobsbawn  queria que o seu Partido Trabalhista inglês fizesse nos anos 70: transformou sua gestão um projeto popular com seus jingles; convenceu as pessoas de que elas queriam o que o PDT representava; mostrou que a política do PDT não era apenas desejável, mas realista; que o PDT representava efetivamente todos os porto-alegrenses e que o PDT ainda tinha futuro na capital. Ao PT, e as oposições de esquerda, só restava como saída seguir a estratégia sugerida por Hobsbawn anos depois, em 1987: vendo que a posição do Partido estava melhorando, mas não o suficiente, sugeriu que a única opção era “votar no candidato que estiver mais bem colocado para afastar o candidato conservador.” Mas quem é que lê Hobsbawn numa hora dessas? 


O pensador da esquerda, hobsbawn, teorizou alternativas para ocupação do poder

Fortunati  venceu a disputa mas seu partido está longe de vencer a guerra. Para se credenciarem na próxima eleição, e nisso dar um passo a frente ao PT que ainda não consolidou uma nova geração de políticos, os grupos anti-pt terão de conquistar espaço na mídia no  que vem pela frente: as Olimpíadas de 2016. Nesse meio tempo, as esquerdas deverão buscar consensos, eleger programas comuns e candidatos com potencial para Prefeitura e Câmara Municipal. O PT precisa se dar conta de que o modelo pragmático de alianças só serve para dar vitória a partidos de centro direita. Conflitos serão inevitáveis e o risco do fracasso está próximo com a direitização da sociedade. Para refundar o PT, sou um dinossauro: acredito que somente o retorno aos ideais de sua ideologia de base fortalecerão sua identidade e recuperarão para seus quadros as novas gerações, dando chance de dar a capital, no futuro, disputas políticas mais eletrizantes do que a que tivemos no passado.


Escrito por

Jorge Barcellos

Doutor em Educação. Autor de "Educação e Poder Legislativo"(Aedos Editora). Colaborador do SUL21, Estado de Direito e Jornal Zero Hora.


Publicado en

Pensamento Contemporâneo

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