Cracknet, a sociedade viciada
Como a dependência do mundo virtual cria novas doenças no mundo real
Jorge Barcellos - Doutor em Educação
As máquinas técnicas funcionam, evidentemente,
com a condição de não serem estragadas.
As máquinas desejantes, ao contrário, não
cessam de se estragar funcionando; só funcionam
quando estragadas
Gilles Deleuze e Felix Guattari, Anti-édipo.
Eu estava vendo no restaurante servidores de meu local de trabalho quando vi funcionários que não descolavam de seus aparelhos celulares, alimentando-se duplamente, de alimentos físicos mas também das informações da rede social, num movimento obssessivo-compulsivo quando me veio a cabeça a palavra cracknet, que evidente, querido leitor, não existe. Mas o filósofo Gilles Deleuze afirma que a filosofia é a arte de inventar conceitos - então, mãos à empreitada. As cenas que vemos pelas ruas e pelos ambientes de trabalho de dependência da internet é, para mim, a verdadeira epidemia de nosso tempo. Sequer se trata apenas da juventude, a chamada "geração internet", dos milhares de jovens cujos hábitus (Bourdieu) envolviam o fato de não se desgrudarem da tela do computador e cujas conseqüências iniciavam na família com o distanciamento das relações com os pais. Quem não se lembra das piadas em que o pai tinha de passar um e-mail para chamar a atenção do filho ou do ambiente escolar, onde jovens reconheciam que nunca tinham lido um livro sequer mas abusavam do uso de sites de resumos de livros para realizar os trabalhos de aula?. Agora a coisa ficou séria: estamos vendo a primeira geração de adultos completamente dependentes da internet, em seus locais de trabalho, em sua casa, na rua - através de seus smarthphones. Você olha para a rua e vê, na sinaleira um motorista grudado no celular, e olha para o lado seguinte, vê a mesma coisa. Essa cavalgada silenciosa, essa rede existencial-tecnológica não pode estar certa. Se não, vejamos.
Chamavamos de "geração internet" a composta por estudantes que saiam da sala de aula para entrar em salas de bate-papo, chats e comunidades do Facebook. Nesse novo universo jovem, “perfis” são as formas de construção de identidades no mundo virtual, e nos termos de Baudrillard, encarnam a realidade do “duplo”, obsessão simbólica da humanidade que persiste em ser personagem de novela. O problema é que este “Duplo” nos substituem na mesma inexorável lógica capitalista – amigos são acumulados a exaustão, compara-se quem tem mais comentários, etc, etc. Diz uma moça a certa altura das redes sociais:“É viciante”. No mundo virtual em que se busca ter mais amigos, o que é paradoxal é que na maioria das vezes, tais amigos são em realidade – não amigos, mas totalmente desconhecidos – e esse “nada” do sentimento é o espelho da própria sociedade. Nesse universo que pretende de alguma forma substituir o real, os pais que viam seus próprios filhos trancados em quartos, preferindo discutir/expor seus problemas na internet do que com a família são agora os que ocupam seu espaço e se isolam dos demais. Fim da família.

Espaço do mundo virtual substitui o real?
O problema é que como no mundo real, no mundo virtual há espaço para muita violência. Tanto para jovens como para adultos. Nesses sites, onde jovens trocavam insultos, deixando comentários nas páginas uns dos outros, brigando virtualmente agora são substituídos por adultos em fúria. É só olhar dos debates do impeachment: quem consegue sobreviver quando assume uma posição?Válvula de escape virtual de uma violência real ou acelerador virtual de uma violência real? No mínimo, violência mediada pela imagem ou mensagem da violência, onde os jovens e adultos revelam o prazer de expor cenas de humilhação para em posta-las não mais no You Tube, mas no Facebook e WhatsApp. Nesse mundo onde jovens tinham relacionamentos no mundo virtual que não tinham no mundo real e negando as teses de Michel Maffesoli da internet como terreno fértil da sociabilidade juvenil contemporânea, agora vemos adultos em plena confragração ideológica que chega as raias do absurdo.
A imagem que vem a mente é a do filme Matrix, no detalhe da conexão técnica da máquina e do ser humano e que parece vir a toda com o advento dos smartphones. Graças a ele, estamos conectados ao computador permanentemente, mas o que significa isso? Existe uma passagem em que Gilles Deleuze dizia que, com a criação do automóvel, criamos outra coisa, o homem-máquina, interrelação misteriosa em que a máquina parecer ser parte de nós e nós parte da máquina. O que Deleuze quer afirmar é que não nos damos conta de que nestas operações automatizadas, ler ao celular, dirigir, etc, também transformamo-nos. E quando esta máquina é o computador, o que significa? Diz uma jovem ”já faz parte da minha vida”, absorção perigosa para educadores para quem o problema é como educar na era onde só a internet tem sentido.

O irreverente filósofo ZIZEK
Não há como negar que a emergência da internet transformou os modos de vida. Esse mundo não vai sumir, mas é perigoso quando jovens e adultos preferem o mundo virtual ao mundo real. Talvez uma forma de assumir um distanciamento disso tudo seja ver a expansão da internet como um elemento a serviço da ideologia da democracia liberal capitalista global, como mostram as análises de Slavoj Zizek. O capitalismo, ao nos apresentar o mundo virtual como um espaço “público”, nos apresenta uma realidade fantasmagórica assimilável dizendo o que podemos ou devemos fazer. O social é insuportável? Então vá para o virtual. A internet é uma realidade fantasmática e em termos zizekianos, o mais perigoso dela é que ela dá a incrível sensação de que a vida torna-se suportável “pois há escolhas a serem feitas”, diz . O ardil ideológico da internet é manter a realidade a uma certa distância, revelando que o que está em jogo justamente são os aspectos traumáticos da realidade que são representados pelo encontro com o outro.
Assim, o vício em internet, ou aqui cracknet - vamos pensar por um instante que este conceito seja possível - torna-se assim tão perigoso quanto o vicio em crack real, objeto de tantas campanhas. O cracknet domina de forma tão intensa o cérebro que torna-se impossível deixar de ler e-mails ou acessar sua conta; e é essa sensação imensa de euforia que a conexão com a internet possibilita que a torna perigosa: quando você se afasta dela, você fica com a urgência de retornar a ela? Sinto, então você já é um viciado.Internet vicia como crack? De certa forma sim, mas não do ponto de vista da produção de alucinações, simplesmente porque ela própria já é a alucinação em si. E o fato de que o usuário de internet não sentir prazer por outros aspectos da vida, reforça o fato de se transformar em vicio. Como assinala Zizek, trata-se de mais um elemento naquilo que ele denomina de “lógica inexorável do capital”, a construção da prisão que governa a vida. Longe de ser somente o abismo de liberdade que promete a internet, ela também é o abismo da desintegração do outro e de si mesmo.

Não lugar como definição de internet
Marc Auge formulou um conceito que identifica a internet: é um não-lugar. O não lugar opõe-se noção antropológica de lugar. Para Mauss, o lugar é o que define nossa natureza, como o lugar que o antropólogo visa estudar, o lugar do nativo, lugar de vida, de celebração da existência, lugar de seus descendentes. Lugar é sempre principio de sentido.” Nesse sentido, a famílía, por exemplo, é um lugar, solo que ajuda a compor a identidade individual, espaço de compartilhamento de referências e vivência de sua própria história. A internet é um não lugar não porque é virtual, mas por sua provisioridade e efemeridade. Para Auge, são lugares comprometidos com o transitório e com a solidão. No mundo caracteriza do pelo excesso (Baudrillard), a internet apresentase como não lugar fugidio, que merece ser estudado, mas não como algo natural, ao contrário, como lugar repleto de contradições e complexidades.
Zizek afirma que durante séculos a igreja teve papel fundamental nos destinos humanos preenchendo todas as ações, atos e desejos de sentido da humanidade. Detendo o significado da vida e do mundo, Zizek diz que a religião era o Significante Mestre e que com o advento da modernidade, perdeu seu espaço. A sociedade capitalista atual implora por um Significante Mestre que o substitua o anterior. Que nosso fascínio pela internet corresponda a um momento desta procura, parece óbvio, mas a verdade é que somente novos pontos de vista sobre a realidade que providenciem consistência a nossa experiência de significado podem ser levados em consideração. Diz Teles em O capitalismo e suas patologias: “o Capitalismo proclama, vende, produz uma ideia de globalização de seres ligados e interagindo entre todos no mundo inteiro, as pessoas, os sujeitos cada vez menos estão “ligados”, interligados numa mesma sintonia de pensamento, crenças, sonhos, ideais. É certo que, sempre houve na história pessoas e pessoas em determinado tempo, no entanto, nunca houve tamanho desencontro de pessoas.” É esse efeito que o vicio em internet, cracknet, termina por ocultar.