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Corpo, Ser e Poder

Lançamento da obra O Sentimento de Sí, de Georges Vigarello, coloca no devido lugar as relações entre o corpo e o poder. 

Publicado: 2016-06-20


O lançamento da obra "O Sentimento de Si, História da percepção do corpo", de Georges Vigarello, é um notável exemplo da vitalidade da história das ideias em França. Influenciado pela École des Annales de Lucien Fevbre e Marc Bloch, Vigarello mostrou que é possível pensar a sensibilidade e os sentimentos ao longo da história ”Senti admiração e amizade por Foucault. Com o passar do tempo, claro, a questão do poder continuou a interessar-me, mas é quase em termos de antropologia que me ocupo do problema das sensibilidades”, afirma Vigarello. (Correio do Povo, 1/3/2003). Na obra do notável historiador, a influência maior foi de Georges Canguilhem, e após, Roger Chartier e Henri Corbin, notáveis historiadores da sensibilidade.

O Sentimento de Si é dividido em 3 capítulos. Em “ A Descoberta do Ser”, Vigarello localiza a tradição imemorial que designa os sentidos corporais como aqueles reunidos pela audição, paladar, olfato, tato e a visão cuja função é informar a alma sobre os acontecimentos do mundo. É a partir desta constatação que Vigarello se questiona sore o destino das “informações vindas de dentro”(p.16), que envolvem nossos “deslocamentos íntimos, sonhos, ilusões, alucinações, percepções pertubardoras com seus indícios orgânicos”. Para o autor de “História do Estupro”, esse contexto sensorial surge de forma tardia na história que permite “interrogar-se sobre si mesmo”.


Georges  Vigarello

O autor encontrará semelhanças com a proposta de Michel Foucault do “Cuidado de Si”. A expressão foi definida pelo autor na obra “A Hermeneutica do Sujeito" (2010): o cuidado de si mesmo (epiméleia heautoû) surge no período socrático-platônico com o significado de cuidado como uma aplicação concreta assim definida por Foucault “é preciso que te ocupes contigo mesmo, que não te esqueças de ti mesmo, que tenhas cuidado contigo mesmo” (FOUCAULT, 2010, p. 6). Vigarello não vai tão longe em sua genealogia, prefere localizar seu nascimento no período das Luzes quando ocorre o ”afastamento de qualquer misticismo, ascendência do sensível e de sua impregnação, dúvida sobre a noção de “alma”, afirmação de uma incontornável liberdade”,  as bases a partir da qual nasce o sentimento de Consciencia de Si.

O capítulo II, "Uma Descoberta de Saber”, analisa as características do “Sentimento de Existência” : agora, a consciência de sí se afasta de uma referência à alma para significar uma interioridade que, ainda que confusa, cruza o mundo físico e moral. No século XIX, afirma Vigarello, tanto a literatura quanto a psicologia tentaram descobrir nas mensagens internas segredos, “redes sensíveis”, a partir dos gestos, comportamentos: é quando nascem os chamados “mecanismos íntimos “ como chave de acesso a interioridade.


Coro no teatro clássico

O capitulo III, “Uma Descoberta de Ação” mostra a constituição de um espaço interior a partir do coro do teatro clássico, que vem a ser pensado como instância decisiva da consciência: “o universo físico tornou-se autônomo”, sentencia Vigarello. Nasce o mundo da representação, o espaço imaginário dos corpos, horizonte que deixa de ser modo de ser ou saber para se transformar num projeto. A psicologia é a grande vitoriosa desse processo, onde emerge uma forma de trabalho, investimento e ação sobre a consciência de si “O que nos introduz, mais do que o imaginamos, na sensibilidade atual: aquela em que a consciência corporal simplesmente impo-se como lugar privilegiado de aprofundamento e de conquista de si”(p. p. 219).

A diferença entre a análise de Foucault, do Cuidado de Si, para Sentimento de Si, de Vigarello, está na distância que este ultimo termina por estabelecer com a obra do primeiro. Em Foucault, o cuidado de si era uma relação “singular, transcendente, do sujeito em relação ao que o rodeia, aos objetos que dispõe, como também aos outros com os quais se relaciona, ao seu próprio corpo e, enfim, a ele mesmo” (FOUCAULT, 2010, p. 50). A leitura que Foucault faz é de Sócrates, e neste, a finalidade politica está na base do cuidado: “é preciso cuidar-se para bem cuidar da cidade, governar-se para governar os outros; desempenhando papel ‘claramente instrumental’, a relação de si para consigo passa, portanto, pela ‘mediação da cidade’” (MICHEL FOUCAULT, 2010, apud MUCHAI, 2011, p. 74) . A leitura feita por Vigarello é antropológica, e neste sentido, esvaziada do conceito de poder. “É sobre as imagens interiores de si que se multiplicam proposições novas: relaxamentos, autossugestões, danças, exercícios ritmos, práticas de concentração ou de expressão”. Para Vigarello, esse “dentro” simplesmente substitui o lugar que fora outrora da “alma” e nesse caminho, perde –se a ideia de exercício de poder sobre o sentimento que cada um tem de si mesmo. Neste aspecto, ainda que sua obra seja brilhante, Vigarello fica nos devendo.


Escrito por

Jorge Barcellos

Doutor em Educação. Autor de "Educação e Poder Legislativo"(Aedos Editora). Colaborador do SUL21, Estado de Direito e Jornal Zero Hora.


Publicado en

Pensamento Contemporâneo

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