Sentimentos e Carecimentos
Na nova fase pós-neoliberal, o campo de batalha do capital é a subjetividade. Você está apto a enfrentá-lo?
Filosofia, liberdade e utopia são três temas que tem uma relação fundamental no pensamento da filósofa húngara Agnes Heller. Para esta autora, a filosofia é radical e deve servir para a critica da sociedade fundada em relações de subordinação e domínio “Radicais são os homens que, distanciando-se da forma de vida burguesa, escolhem uma forma diversa e motivam e expressam teoricamente esse distanciamento e essa nova orientação” (Heller, Filosofia Radical, 1986).
Entre o ser humano e o dever-ser humano, a filosofia radical pensa as formas que possibilitem atingir o estado de felicidade. Heller vê a humanidade atravessando períodos de frequentes dores cotidianas e frequentemente aponta para a necessidade de elaborar ideais que encarnem uma nova utopia. Ela deseja uma teoria da sociedade que, tematizando com a antropologia (por um novo homem), possa sugerir uma nova forma de vida. Ao sofrimento social, a filosofia deve apresentar um projeto de vida.
Que projeto de vida temos hoje? Por todo o lado vemos cenas que mostram o esvaziamento do humano, da política e da vida cotidiana. Elas mostram uma perda de referências éticas e morais que produzem mais sofrimento. Heller (Filosofia Radical, p.154) afirma que o sofrimento contemporâneo é em virtude da fase burguesa que atravessamos, onde o indivíduo sofre um processo progressivo de atomização que o leva a solidão “A filosofia radical não pode se subtrair a realização da tarefa de dar uma resposta aos problemas existenciais da vida humana” (Heller, p. 155). Ela tem razão, mas o filósofo não precisa atingir todas as dimensões da existência humana em seu projeto de vida. Sua singularidade se dá enquanto ele é um receptor parcial (Heller, 1989, 158) de uma esfera de possibilidade, que contudo, conduza ao universal. Essa esfera de possibilidade é oferecida pelas necessidades do homem concreto.

A depressão não é apenas a face de um sentimento individual, é produto do tipo de sociedade em que vivemos
Por isso, distanciando-se de Junger Habermas, ela formula um pensamento próprio: enquanto o filósofo alemão entende a utopia radical baseada na ideia de verdade, justiça e liberdade através da qual se atingiria a democracia como comunidade ideal de comunicação, Heller explica que esses ideais tem como referência apenas uma qualidade do homem: a de ser dotado de razão. Quer dizer, atinge a comunidade ideal de comunicação o ser humano racional, capaz de argumentação racional, mas Heller o questiona “Mas os homens aos quais se refere esse ideal não tem nem corpo, nem sentimentos, e mesmo ainda, relações humanas” (Heller, p. 164). A sociedade ideal não pode passar por cima das relações humanas imediatas: enquanto ser humano inteiro, permeado de paixão e razão, o projeto social deve incluir a dimensão dos afetos como essencial. Mas adiante, finaliza Heller “o número de relações humanas imediatas é escasso. Mas são essas poucas relações as mais essenciais na vida do homem” (Heller, p.173). Contra a massificação da vida social, produto de um capitalismo em sua fase de expansão, Heller sinaliza com um projeto ampliado: se o capitalismo usa da manipulação dos sentimentos e carências humanas para impor sua lógica à sociedade, Heller mostra que um projeto social também deve nascer de nossas necessidades, necessidades de sermos tratados com igualdade e dignidade.
A originalidade do pensamento de Heller não se aprende apenas em retomar a proposta de filosofar como atitude básica para a mudança na vida, mas porque ela recoloca o papel do indivíduo nesta busca. Contra o determinismo das megateorias da sociedade, contra o individualismo consumista, Heller vai à crítica da noção de individualismo burguês onde “o indivíduo é considerado um átomo que só pode realizar sua vontade transformando os outros em objeto” (Heller, 1982, 150). Não é exatamente esta a questão, do individualismo obsessivo que transforma por todos os lados, a corrupção inclusive, em nosso modo de vida?

Obra chave de Agnes HEller
Esta concepção de Heller vem sendo amadurecida desde 1972, data da publicação de “O cotidiano e a História”, onde a autora estabelece a relação entre o indivíduo e a comunidade como relação básica do social. Heller (1972, p.71) distingue diferentes relações: o primeiro indivíduo com a sociedade, com o grupo e com a massa. Na primeira, as relações são de integração e diferenciação; na segunda, pode ser casual, mas é construída pelo grupo ativamente e na terceira, é uma participação manipulada. O nível de comunidade se caracteriza por uma unidade estruturada de grupos, hierarquicamente homogênea em seus valores, aos quais os indivíduos se sentiriam vinculados.
Heller destaca é o caráter histórico da individualidade. Cada época tem a tendência a incentivar formas de consciência e maneiras de pensar. Ela diz que “... a individualidade se enriqueceu com a características inteiramente novas, como a subjetividade, a interioridade, documentadas pelo grande desenvolvimento da música e da lírica, seus sensíveis sismógrafos” (Heller, 1972, 75), o que vai contra a ideia de uma natureza humana imutável que se constitui de uma vez e se mantém idêntica ao longo dos séculos. A autora, deixa claro que é pelo fato de que o que origina o desespero contemporâneo é o fato de que não estamos sabendo resolver nossa relação com a comunidade:”...o indivíduo experimenta agora a falta de comunidade como solidão, como infelicidade”.
Heller propõe um conceito para compreender os sentimentos no campo social: a ideia de carecimento. Sem compreendermos como o neoliberalismo trabalha os sentimentos humanos, na perspectiva proposta por Buyng Chul-Han em seu Psicopolitica, não encontramos a chave para propor uma mudança de vida. Para Heller, é preciso compreender o campo dos carecimentos sociais, das necessidades sociais. Para a autora, carecimento radical é definido por Heller como “os carecimentos nascidos na sociedade capitalista em consequência do desenvolvimento da sociedade civil e que não podem ser satisfeitos dentro dos limites dessa sociedade” (Heller, 1982, 153). Os carecimentos radicais podem ser puramente quantitativos ou qualitativos. Os primeiros são aqueles que implicam, para a sua satisfação, que um homem se torne puro objeto para outro homem. A sua característica marcante é que neles que se dá o lugar da alienação por excelência. Heller enumera três carecimentos que não podem e não devem jamais serem satisfeitos: de posse, de poder e de ambição. Já os carecimentos qualitativos expressam aqueles que não são satisfeitos de forma alguma no capitalismo como o ideal de liberdade e o fim da alienação. A filosofia radical busca justamente satisfazer esses carecimentos ao introduzir a busca por novos valores cujo objetivo é a inovação nas formas de vida, isto é, a criação de uma nova sociedade.A revolução das formas de vida é a transformação de longa duração na qual os carecimentos tidos como ausência são transformados em carecimentos como projeto.

Agnes HELLeR
A manipulação dos carecimentos é um dado da estrutura social. O seu reconhecimento é um dado da estrutura social e depende da consciência do homem, que busca fundar novas formas de solidariedade. Contudo, a natureza da vida cotidiana impede a modificação de um dia para o outro. Por isso, pode-se entender que a ideia de carecimento é anterior a ideia de sentimento no pensamento de Heller. É que para Heller, a ideia de sentimento implica num “estar envolvido em algo”. Podemos assim dizer que sentimentos não realizados transformam-se em carecimentos, que podem ser radicais ou não, mas o pressuposto do carecimento e sentimento não é claro e unívoca, no pensamento de Heller. Ao falar dos ideais para uma nova sociedade com base nas relações humanas imediatas, ela identifica carecimento e sentimento porquê não podemos “passar por cima das relações humanas imediatas: a amizade, a bondade, o amor, o amor ao próximo, a compaixão, a gratidão, a generosidade” (Heller, p. 165). Heller amplia a ideia de sentimento na de carecimento: todo o sentimento deve ser reconhecido desde que não vá contra a interpretação fundamental do ideal de liberdade: “O homem não pode servir como puro meio para os outros homens” (Heller, 1989, 172). Há um profundo sentimento ético em Heller para com o ideal de liberdade: ele não pode ser violado, nem mesmo enquanto objeto de um carecimento.
É da natureza dos sentimentos e carecimentos serem vividos de forma heterogênea “É impossível vive-los sempre intensamente” (Heller, 1982, 27). A essência humana é ponto de reflexão filosófica de Heller, principalmente em “O Cotidiano e a História” por isso sua preocupação com os sentimentos como parte da natureza humana. Mas o conceito não é suficiente para dar conta da subjetividade no campo social. Heller considera, como Marx, a essência humana como sendo o trabalho, a sociedade, a autoconsciência e a liberdade. Essas são qualidades produzidas pela própria evolução humana (Heller, 1972, 76). Cada homem por conseguinte, é ao mesmo tempo, entre particular-individual e entre humano-genérico, define-se como singularidade (Heller, 1972,43). Ser singular é ser parte da humanidade. Os sentimentos humanos ocupam seu espaço, fazem parte da qualidade da sociedade e permeiam as relações sociais pois tem base no afeto. Esquecer este principio é ocultar o modo pelo qual a sociedade neoliberal quer exercer a sua dominação.