Cartografia da Escola
Professores ainda colocam-se a questão de como ensinar. Será que já pensaram no que desejam seus alunos?
“A cartografia se distingue do mapa. É que o mapa delineia os contornos dos territórios, tais como foram estabelecidos. É um apriori de inteligibilidade das paisagens. Ele atravessa o tempo indelével, a não se que se mude o contrato de organização da divisão dos territórios. O mapa só cobre o visível. Já a cartografia acompanha a transformação da paisagem. É para isto alias que ela serve. Senão não serve. Ela nasce da geografia dos movimentos da terra, imperceptíveis ao olho. Ela nasce daí, mas sua missão é criar língua para os movimentos: criar para eles condições de passagem e efetuação. Criar história” (ROLNIK: 1989, p. 6-7).
Que professor é este que se pretende formar a partir de metáforas? Ele é um investigador não apenas da verdade da escola, do seu sentido objetivo – quais as realidades empíricas e verificáveis capazes de promover o sucesso do processo de ensino. Ao contrário, da “verdade” ele está cheio, ele busca entender as matérias de expressão que se verificam no espaço escolar, a linguagem que melhor possibilita a passagem de determinadas intensidades, verdadeiro “corpo-a-corpo” em que estão submetidos os professores junto a seus alunos, algo vitalizante e que constitui realidade. Sem essa “porta” de contato, não há canal de comunicação nem transmissão de saber. Realidade dos afetos do processo de ensino.

O campo existencial, os afetos de educandos, é um bom ponto de partida para planejar aulas.
É preciso descobrir os afetos presentes no espaço da escola. Como podemos ensinar sem nem ao menos somos capazes de perceber o que movimento o desejo de nosso aluno? Sem isso, como faremos para que deseje o saber? É preciso fazer emergir de sua linguagem, suas intensidades. Se reconhecer que existe uma vontade, a da expansão da vida, ele compreenderá porque a escola sobreviva ainda que o ensino esteja desacreditado. E verá que o plano da linguagem, comunicação que consegue estabelecer com os alunos no espaço escolar é uma tábua de salvação para suas atividades. Se ele tiver medo da transformação, estará impedindo de existir tudo aquilo que pode fazer sua aula “vibrar”. Sala de aula é lugar de vida, e por isso exige sujeitos entregues em seu desejo. Se tiver medo de participar desses movimentos, ele resiste, faz sua aula tradicional. Ele pode ou não perceber a demanda de conhecimento por algo em sua sala, denunciada por um simples gesto de seu aluno. Tantas são a forma de parar o tempo da escola: o professor que repete a apostila, que proíbe seu aluno de trazer à discussão elementos divergentes. Pois se há afetos para o aluno, há também par ao professor, e quem tem medo, tudo faz para encaixar o diferente em seu sistema garantido. Para ensinar é preciso se entregar.
Os professores são por isso narcisistas. Eles querem o espelho, o aluno é o outro que pode ou não ser objeto de identificação. “Por isso o outro, sua fonte, ele ou enaltece para se identificar, ou destrói para se contra-identificar. Narciso quer reconhecimento e legitimidade. Só escolhe o que tiver garantia. O corpo de narciso é liso. Já o cartógrafo tem a pele marcada por todos os encontros que faz em seu nomadismo. Ele é antropófago. Vive de expropriar, de se apropriar, devorar e desovar, transvalorado. Está sempre buscando elementos/alimentos para compor suas cartografias. Este é o critério de suas escolhas” (Rolnik, p.10).

Nem sempre as melhores abordagens encontram-se nos livros de teorias pedagógicas.
Por isso, Teoria da Aprendizagem se transforma numa disciplina estranha. Para possibilitar condições para que os alunos conduzam o processo de ensino na escola, é preciso familiarizar-se ao campo de seus desejo, refratário por si mesmo ao racionalismo. Tudo isto é um projeto, e para ele, tudo é bem vindo. É preciso servir-se de diferentes entradas para o campo do desejo na escola, nem escritas, nem teóricas, que são, ao contrário, os operadores conceituais de grande relevância como o cinema, a música e a arte.
Do inicio ao final da caminhada, trata-se de trabalhar com os processos de desterritorialização da subjetividade na escola, e junto, a constituição das novas formas da subjetividade escolar. Nisso tudo os professores foram os que mais se desterritorializaram, perderam não só o lugar como centro do processo de ensino, como também o conhecimento que lhes era outorgado passou a lugar secundário no cotidiano dos alunos e da escola – aqueles mais preocupados com suas amizades, estes mais preocupados com o controle e o processo disciplinar. Todos os professores sabem da dor desse processo, mas essa transformação está indissoluvelmente ligada as novas formas de sociabilidade criadas por alunos em suas relações de grupo e as novas condições de trabalho, que outorga lugar secundário ao saber . Todas as estratégias de ensino ficam ultrapassadas quando o desejo se desloca do espaço da sala de aula para o da rua, quando sofre influência dos novos símbolos a disposição da juventude e quando nem mesmo o mundo parece lhe dar algum valor.