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O que esperar do ensino

Perspectivas da afetividade no espaço escolar

A revolução na educação passa mais pela adoção de uma posição existencial  no ato de ensinar do que uso de recursos de ensino  

Publicado: 2016-07-09


A questão da produção do desejo é anterior à questão da produção e reprodução do saber. A primeira coisa que aprendemos é que desejar vem antes do conhecer mas são interligados. Desejar a vida e com ela o conhecimento que carrega. “Só dá para falar em agenciamento de corpos gerando movimento de afetos e movimento de simulação desses afetos em certas mascaras, do modo que certas matérias de expressão fiquem sob encantamento, como que enfeitiçadas.”(Suely Rolnik, Cartografia Sentimental da América, p.23).

A segunda coisa que aprendemos é que sala de aula é lugar de artifício. As relações aluno e professor são marcado pela produção de artifícios, quer dizer, de simbolizações que produzem-se e desmancham-se ao sabor do tempo, criando seus territórios onde o conhecimento é uma das matérias de expressão e nascimento de mundos. Se o conhecimento sobre determinado objeto favorece a construção de um território, ele vinga, se não, ele gora. Ou seja, no conhecimento encontramos indissociáveis conteúdos e afetos e precisamos urgentemente dos afetos para fazer os conhecimentos vingarem “o aluno que vai com a cara/gosta do professor”. E na medida em que o professor deixa de usar esse catalizador que se constrói no plano existencial, ele simplesmente fracassa. A olho nu, uma sala de aula pode ser perfeitamente visível: alunos ouvindo, professor falando. Mas é no plano intuitivo e existencial que o sentido se afirma – e não são raros os casos de alunos com a mente a quilômetros de distância, para a alegria de muitos professores. “o desejo é exatamente, essa produção de artifício. Portanto, não há nenhuma pulsão interna a movimentar o desejo. O movimento do desejo – ao mesmo tempo indissociavelmente energético e semiótico surge dos agenciamentos”, diz Rolnik.


Aula como espaço existencial

Uma nova concepção de aula como espaço de aprendizagem está em gestação: um campo de manifestação de uma energética semiótica, movimento de corpos, mentes e intensidades tentando se manifestar e lugar de criação de sentido para efetuar essa passagem. Fizemos um esforço para perceber as partículas de afeto nos corpos de nossos alunos, a dinâmica de ondas e vibrações desses afetos – sorrisos, cumplicidades – o estado intensivo de um professor e de um aluno na capacidade de se afetarem mutuamente e o conjunto de afetos que os torna feliz em sala de aula.

Dessas novas teorias e novas abordagem, atenção especial deve ser dada ao que Gilles Deleuze chama de platô, essas regiões de intensidade que podem ser percebidos nas relações entre as pessoas. Arrisquemos a dizer que sua existência também se dá no espaço escolar. É preciso ficar sensível ao ambiente: o “aspirante a professor” encontra uma turma de alunos; eles afetam-se mutuamente, atraem-se e geram afetos entre si que serão determinantes para o sucesso ou fracasso do processo de ensino. Eles parecem reagir a tudo que acontece em sala de aula – ou ao contrário, é pura alienação. Somente quando estamos tomados de uma coragem de falar pelo conhecimento, quando esta vontade nos faz carregar nossa transmissão do saber com afeto, falando em nome próprio, quando o professor está em “estado de graça”, com brilho nos olhos ele é capaz de envolver (Agnes Heller). Pois sentimento é envolvimento. As máscaras, se olharmos assim, estão em pleno funcionamento, a todo o vapor. Os alunos o olham fascinados.


O que resta do aprendizado após nossos cursos?

Para concluir, tudo isso, ainda que muito estranho, talvez não seja. É uma mensagem de incentivo a aventura: se você consultar a própria memória, verá que foi um professor deste tipo que marcou você e colocou como alternativa de sua existência o magistério você se vê diante da mesma cena. E é provável que você optou por uma área e não por outra não por uma opção consciente – foi mas não somente – foi porque um aspirante à professor “gorou” (fracassou) diante de você. Daí o seu curto circuito com determinadas áreas, determinadas profissões. Toda vez que você era defrontado com uma disciplina, digamos matemática, seu desejo se enrijecia, sua luz ficava menos vibrante; somente noutra área ou discplina você irradia luz. Toda a história das disciplinas escolares está marcada por esse processo de anestesia em primeiro grau, que rouba a possibilidade que temos de afetar e sermos afetados. Você não vai querer perder esta chance de fugir ao sistema, vai?


Escrito por

Jorge Barcellos

Doutor em Educação. Autor de "Educação e Poder Legislativo"(Aedos Editora). Colaborador do SUL21, Estado de Direito e Jornal Zero Hora.


Publicado en

Pensamento Contemporâneo

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