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Escola  foi praticamente toda destruida

De quem é a escola afinal?

Escola Érico Veríssimo, de Porto Alegre, se transforma em território de disputa do tráfico. Como isso foi possível?  

Publicado: 2016-07-27

A violência sofrida pela Escola Estadual Erico Verissimo, em Porto Alegre, é terrível pela destruição que provocou, mas é apenas a ponta da verdadeira violência, a simbólica, dada pelo “É tudo nosso”. Diz a filósofa e psicanalista Catherine Millot que “escreve-se o que não pode ser dito. O escrito é aquilo que não se conversa”: por esta razão alguns professores não se deixaram filmar em entrevistas.

A escola já havia enfretando uma onda de terror com quatro tiroteios equipe pedagógica da Escola Estadual Erico Verissimo, no Bairro Jardim Carvalho, na Zona entre o fim do ano passado e abril deste ano que obrigaram aos alunos ficar no chão para não serem atingidos por bala perdida. Os professores começaram a trabalhar o tema da violência em sala de aula, as portas foram abertas à comunidade e à Brigada Militar para apresentar o projeto Aluno Cidadão, mas logo se constatou que foi tudo em vão. Ao entrar na escola, vice-diretora percebeu que havia sinais de vandalismo e um pó amarelado marcando o corredor, tomando conta de quase todas as salas de aula. Diz a Diretora: — O que esperar de uma coisa dessas? Estamos aqui há 13 anos construindo esse patrimônio. Cada computador, cada coisinha aqui fomos nós que conseguimos adquirir economizando nos repasses de verba. Era uma escola totalmente equipada. Agora, só me resta chorar — lamentou a vice-diretora diante do cenário de horror (ZH, 18/07)  


FONTE: Zero HORa

Nada do que lembre uma escola restou de pé. Canetas, cadernos, cadeiras, computadores, tudo foi destruído. Os vândalos deixaram um “é tudo nosso” na lousa da diretora. Situado no bairro Jardim Carvalho, próximo ao bairro Bom Jesus, da facção Bala na Cara e Vila Jardim, da facção Antibala, vivem em território de conflito.  

Tem razão Rosane de Oliveira em sua coluna em Zero Hora ao dizer que falhou o governador: ao “é tudo nosso”, deveria ter respondido com um sonoro não. Não o fez porque sabe de sua culpa: o caso é uma consequência catastrófica do sistema político em que vivemos.

A cidade já vive em estado de guerra permanente: gangues contra gangues, servidores contra estado, alunos contra professores. A escola foi a vítima errada na disputa de um território, exatamente como é a vítima de uma bala perdida. Pior: a violência contra a escola mostra o futuro da atual política de segurança baseada na redução e investimentos.


Secretario de educação visita a escola

Vivemos uma era de violência sistêmica assumida pelo Estado, muito mais cruel porque é invisível. A violência da escola foi real, mas o papel da crítica é mostrar o que é realmente monstruoso: o cenário da violência quer passar uma lição à sociedade através da escola. Para reagir a ela, é preciso que o governador assuma a posição de defesa da sociedade. Não o faz por que seu objetivo é outro, é defender o Capital.

Entre a crítica e a aceitação, a terceira alternativa é aquela dada por Lenin que, segundo o filósofo esloveno Slavoj Zizek, perguntado por estudantes sobre o que deveriam fazer, sempre respondia “estudar, estudar, estudar”. O processo de reconstrução da escola virá, mas frente a violência, a melhor atitude é o retorno às aulas, a lenta recuperação da normalidade e a conscientização de que a verdadeira violência é simbólica e promovida pelo Estado: não há violência maior do que a defesa do projeto neoliberal que massacra direitos consolidados pelas categorias responsáveis pela segurança e educação.

A violência não vai desaparecer, mas convém estarmos atentos as formas de reagir a ela. Se nossas vidas estão expostas a violência é porque a soberania do Estado é que está ameaçada.


Escrito por

Jorge Barcellos

Doutor em Educação. Autor de "Educação e Poder Legislativo"(Aedos Editora). Colaborador do SUL21, Estado de Direito e Jornal Zero Hora.


Publicado en

Pensamento Contemporâneo

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