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Fórum Nacional dos Museus: a questão ausente dos debates (Por Jorge Barcellos)

Fórum Nacional dos Museus com sua proposta a-política, esvazia a reflexão dos verdadeiros problemas museológicos, a da falta de uma politica de estado de apoio aos museus.

Publicado: 2017-05-24



O Dia Nacional dos Museus tem servido para o governo dizer que tem o que não tem, politica de museu. A nível federal, a política de museus estabelece o darwinismo museológico: a concorrência pura e simples pelos escassos recursos através dos editais; a nível estadual, nossos museus com acervos de nível internacional estão abandonados a sua própria sorte; a nível municipal, os museus locais disputam os escassos recursos para equipamentos e pessoal. Passa ano e vem ano e a idéia de políticas públicas de museus é apenas isso, uma idéia. A área entrou o século XXI exatamente como estava no anterior: com recursos minguados e com concursos públicos insuficientes para repor a mão de obra. A conseqüência é que nossos melhores acervos de jornais convivem com teias de aranha, nossos melhores quadros artisticos aguardam restauração e nossas melhores esculturas públicas encontram-se abandonadas em depósitos. Que Fórum Nacional dos Museus é este promovido pelo Ibram que não bate nestas questões?

Pior: há carência de debates sobre os assuntos realmente sérios da área. Em primeiro lugar, nesse Fórum Nacional dos Museus, os profissionais, ao invés de procurarem soluções na iniciativa privada, deveriam estar pressionando os governos a fazerem o seu papel, investirem mais em cultura. Em segundo lugar, os profissionais da área devem questionar em primeiro lugar os processos de digitalização galopante de nossas instituições públicas. Estamos falando os acervos do poder executivo, legislativo e judiciário de hoje, cada vez mais digitalizados. Estamos produzindo o acervo do futuro sim, mas que acervo é esse? Quem garante a sobrevida de fotografias, de processos, que agora em suporte digital, e portanto, gravados em DVDs que substituem o suporte papel, sobrevivam mais do que uma década? Essa modernização que cede ao menor risco, ao menor vírus, é a política de preservação de acervos públicos que queremos?


Em terceiro lugar,  sequer estamos discutindo em profundidade sobre nossas práticas de museu. Quem disse que banners gigantes de fachada, centenas de telas de TV espalhadas pelo museu é garantia de boa exposição? Neste mundo pós-moderno, cobram de nossos museólogos a garantia de experiências sensíveis cada vez maiores, de iluminações instantâneas, de macro-exposições, de exploração dos sentidos que leva, paradoxalmente, a uma perda da memória no interior da instituição museal e não uma apropriação séria de um saber cultural. Sequer discutimos as funções legitimadores que novos museus estão ocupando, seja na expansão capitalista, nos casos de museus de grandes empresas e corporações, seja ideológica, nos museus criados para homenagear grandes lideranças políticas. Quem faz as escolhas e com quais razões? Museu da escova de dente e por aí afora, que museus estamos criando? A verdade é que os novos museus estão cada vez mais organizados para darem um retorno calculado para seus patrocinadores, sejam eles empresários ou políticos e nesse processo estão terminando de uma vez para todas com as estratégias tradicionais de salvaguarda da objetividade científica necessária à constituição e preservação dos acervos museais e a sua divulgação.

Os museus, de agora em diante, deverão refletir sobre se querem ou não atender ao desejo dos novos tempos de hegemonia da imagem, do entretenimento instantâneo, do culto politico, da valorização do mercado e do exibicionismo de macroexposição típicos da industria cultural. O museu tem algo a dar que não pode ser oferecido por nenhum outro meio. É isso que os museólogos precisam discutir nesta data.


Escrito por

Jorge Barcellos

Doutor em Educação. Autor de "Educação e Poder Legislativo"(Aedos Editora). Colaborador do SUL21, Estado de Direito e Jornal Zero Hora.


Publicado en

Pensamento Contemporâneo

Artigos de Opinião sobre temas e problemas contemporâneos do Brasil com um pouco de filosofia.